Muitas das tardes de Domingo eram passadas em casa da prima Guiomar. Era quase um ritual que toda a família tinha de respeitar. Eu era a única criança que estava no meio daquela gente adulta, séria e cinzenta.
Era pois uma grande “seca” ainda por cima a prima tinha uns olhos tipo raios X. mirava-me de alto abaixo, com os óculos na ponta do nariz, até parecia que conseguia ver em mim as malandrices que eu fazia.
Aconteceu que uma tarde de domingo, daquelas em que o sol não apareceu, depois de termos conversado sobre as aulas, o dever de estudar, o respeito aos professores… e como se aproximassem as cinco horas da tarde, fomos lanchar na mesa oval que já era do tempo do troca o passo…
Na mesa nunca faltava o leite com chá (sim porque a prima Guiomar tinha vivido uns anos em Inglaterra e não dispensava esse hábito que tinha trazido de lá) umas torraditas, fruta, mas bolos ou rebuçados… nunca!
Enquanto lanchávamos, sentada ao meu lado, a minha tia ia-se lamentando com as lamechices do costume: “não há nada que pague a saúde!!! Esta gente nova não quer saber, come de tudo o que lhe apetece, fumam, enfim são uns desavergonhados e irreverentes.
Para meu espanto, a prima abriu mais e mais os olhos fitando-a: “ isso não é verdade Josefa. O que é mesmo mais importante nem é a saúde, nem o amor, mas sim o AR. Ficámos boquiabertas. E prosseguiu com o ar mais convicto deste mundo: “já reparaste que sem ar ninguém consegue viver?! Ao fim de cerca de três minutos qualquer pessoa morre!” Bem, ficámos a olhar espantadas uma para a outra e a minha tia, passados alguns segundos, assim com um ar de quem tinha ficado meio baralhada, acabou por concordar, acenando afirmativamente com a cabeça.
Quando o lanche/visita terminou saímos para a rua, descendo a calçada que conduzia à baixa da cidade. Eu ia muito pensativa! Pensava na minha avó, de quem gostava muito, e que estava doente no hospital, com uma doença daquelas de que ninguém gosta de falar…
Logo no dia seguinte, uma segunda-feira, e como estava de férias de Natal, fui visitar a minha avó. Levei-lhe uma rosa daquelas amarelinhas de que ela tanto gostava, e contei-lhe a conversa que tinha tido na véspera em casa da prima. Pensava eu que assim a poderia confortar.
Eu estava tão entusiasmada que contava todinho da conversa que ouvira.
Ó avó já viu que o AR é o que há de mais importante na vida?!
Ela olhou para mim, com aqueles olhos doces e meigos que eu tão bem conhecia e esticando o braço fez-me uma festa na cabeça.
O seu coração compreendeu o que eu lhe queria transmitir.
Foi então que a minha avó começou a rir com uma alegria inesperada…
Eu sentia-me feliz porque consegui pôr aquele rosto meigo com rugas, emoldurado de cabelos grisalhos, com um enorme sorriso!
E em boa verdade se diga, com esta história do AR que a prima Guiomar contara, ambas, eu e a minha avó, nos esquecêramos por momentos de que a saúde era um bem precioso!!!